Escritora, cozinheira caseira e observadora de dias comuns. Nasci em Hanói e hoje vivo entre os Países Baixos e as memórias de Portugal.
Minha avó tinha uma cozinha pequena onde o cheiro de coentro e alho nunca desaparecia. Eu sentava no chão de azulejos frios enquanto ela preparava pho para o almoço. Não era sobre a receita. Era sobre como ela cortava as ervas com precisão, como ela falava sozinha em tom baixo enquanto o caldo borbulhava. Aos sete anos eu já sabia que a comida carrega histórias. Quando meus pais decidiram mudar para a Europa, levei essa certeza comigo como uma mala invisível.
A adaptação foi difícil. Em Paris, o inverno era cinza e a língua francesa parecia uma parede. Em Barcelona, o sol era generoso mas eu sentia falta do cheiro de jasmim do quintal da minha avó. Foi só quando cheguei aos Países Baixos, já adulta, que encontrei um equilíbrio estranho e bonito entre o silêncio do norte e a memória do sul.
Por quase quinze anos trabalhei com design gráfico para marcas de moda e interiores. Viajava muito, dormia pouco, comia em aeroportos. Achava que estava vivendo intensamente. Na verdade, estava apenas passando rápido por tudo. Em 2019, depois de uma semana em Milão para uma campanha, voltei para casa com uma tosse que não passava e uma sensação de que tinha perdido algo importante. Não era doença. Era ausência de presença.
Foi quando comecei a escrever. Não para publicar. Apenas para mim. Pequenos parágrafos sobre o que eu comia, como o sol entrava na janela da cozinha às 16h, o que meu gato fazia quando eu estava longe. Aos poucos, essas anotações viraram cartas para mim mesma. E depois viraram este espaço que você está lendo agora.
Deixei Hanói com treze anos. A primeira coisa que notei em Paris foi que o pão tinha gosto diferente. Aprendi a fazer baguete caseira para matar a saudade.
Fui a Lisboa por trabalho e acabei ficando três semanas. O cheiro do mar, o pão de centeio quente nas padarias de bairro, as conversas longas em cafés — tudo isso me ensinou que o tempo pode ser gasto de outra forma.
Depois de uma crise de exaustão, larguei projetos grandes. Comecei a cozinhar todos os dias, a caminhar sem fones de ouvido, a escrever sem objetivo de postar. Foi assustador no começo. Depois virou liberdade.
Comecei a compartilhar aqui as histórias que antes guardava só para mim. Não queria ensinar ninguém. Queria apenas registrar o que me fazia sentir em casa, onde quer que eu estivesse.
A vida boa não é sobre ter mais tempo. É sobre notar o tempo que já temos.
Uma receita só fica boa quando você coloca atenção nela. O mesmo vale para os dias.
Não preciso ir longe para encontrar beleza. Ela está na xícara de chá que preparo devagar todas as tardes.
Escrever é minha forma de agradecer. Cada história é um obrigado ao que já vivi.
Se você chegou até aqui, obrigada. Espero que alguma dessas palavras tenha feito você parar por um instante e olhar ao redor com mais carinho.