Acordo antes do alarme. Não por disciplina, mas porque o corpo já sabe. A luz ainda é azulada quando abro os olhos. Em vez de pegar o telefone, eu viro o rosto para a janela. A cortina de linho deixa passar uma luz suave que pinta as paredes de cinza claro. É o primeiro momento do dia que me pertence completamente.
Levanto devagar. Não corro para o banheiro. Vou primeiro até a cozinha, encho a chaleira com água filtrada e coloco para ferver. Enquanto espero, abro o caderno que fica sempre na mesma prateleira. A capa de couro já está gasta nos cantos. Dentro, páginas cheias de frases soltas, listas de compras antigas, desenhos ruins de xícaras e plantas.
“Não escrevo para lembrar. Escrevo para não esquecer como me senti enquanto vivia.”
O chá como âncora
A água ferve. Eu escolho o chá dependendo do humor. Hoje é um oolong leve com notas de flor de laranjeira. Coloco as folhas em um infusor de vidro e observo elas se abrirem devagar na água quente. Não uso timer. Quando a cor fica do jeito que gosto, paro. O cheiro sobe e preenche o ar. É um ritual simples, mas que me lembra que algumas coisas precisam de tempo para se revelar.
Levo a xícara e o caderno para a mesa da sala. Sento sempre no mesmo lugar, de frente para a janela que dá para o pequeno jardim dos vizinhos. Não há vista espetacular. Há um arbusto de alecrim que cresce torto, um gato preto que passa às vezes, e o som distante de um trem. É suficiente.
Três linhas que mudam o dia
Escrevo três coisas. Não são gratidões forçadas. São observações. Hoje escrevi: “O vapor do chá subiu em espiral até tocar o vidro da janela e desapareceu.” “O gato preto parou para olhar para dentro por três segundos.” “Minhas mãos estão quentes da xícara e isso me deixa feliz.”
Não planejo o dia. Não faço lista de tarefas. Apenas escrevo o que vejo e sinto no momento. Depois fecho o caderno. O dia já começou de forma diferente de quando eu acordava e já estava pensando em e-mails.
O que costumo incluir nos meus rituais matinais:
- • Preparar o chá devagar, sem pressa de terminar
- • Escrever três observações do momento presente
- • Olhar pela janela por pelo menos cinco minutos sem fazer nada
- • Alongar o corpo no chão, sentindo cada movimento
- • Não checar o telefone antes de terminar o chá
O silêncio que preenche
Depois de escrever, fico sentada em silêncio. Não é meditação formal. É apenas não fazer nada por alguns minutos. Deixo os pensamentos passarem como nuvens. Alguns são sobre o que preciso fazer depois. A maioria é sobre coisas pequenas: o barulho da chaleira que ainda está quente, o pássaro que canta na mesma árvore todas as manhãs, a textura do tecido da minha blusa.
Quando o silêncio termina, eu levanto e começo o dia de verdade. Mas algo já mudou. Eu não entro no dia correndo. Eu entro depois de ter me encontrado primeiro.
Tem dias em que o ritual dura quarenta minutos. Tem dias em que dura quinze. O importante não é a duração. É a intenção de começar devagar. De acolher o dia em vez de atacá-lo.
Se você também tem rituais que te trazem de volta para si, me conta. Adoro saber como outras pessoas começam seus dias com mais presença.
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