Caminho quase todos os dias. Não uso aplicativo para contar passos. Não uso fones de ouvido. Apenas sapatos confortáveis e uma jaqueta leve. O objetivo não é chegar em lugar nenhum. O objetivo é ver o que acontece entre um passo e outro.
Quando morava em Barcelona, eu caminhava pela praia todas as tardes. O mar mudava de cor dependendo da hora. De manhã era cinza-prateado. Ao pôr do sol virava laranja derretido. Eu parava muitas vezes para olhar. As pessoas que passavam deviam achar estranho. Eu não me importava.
Hoje, nos Países Baixos, caminho por trilhas de terra e estradas de cascalho. No outono, as folhas secas fazem barulho sob os pés. É um som que me acalma. No inverno, o ar é cortante e cheira a fumaça de lareira. No verão, o verde é tão intenso que parece que a paisagem respira.
O que eu costumo notar durante as caminhadas:
- • A forma como a luz muda nas copas das árvores ao longo do dia
- • O cheiro da terra depois da chuva
- • Pássaros que cantam sempre no mesmo lugar
- • Pedras que parecem ter sido colocadas ali de propósito
- • O vento que sopra de direções diferentes em cada curva
A arte de andar sem pressa
Quando eu andava rápido, via apenas o que estava na minha frente. Quando desacelerei, comecei a ver o que estava ao lado. Um ninho de pássaro em um arbusto baixo. Uma flor que cresceu entre as pedras. Uma cadeira velha deixada na varanda de uma casa antiga.
Uma vez encontrei uma pena de coruja no meio do caminho. Era grande e macia. Levei para casa e coloquei no meu caderno. Ainda está lá. Me lembra que às vezes as coisas mais bonitas aparecem quando a gente não está procurando.
Caminhar como forma de pensar
Muitos dos meus melhores pensamentos surgem enquanto caminho. Não é que eu saia para pensar. É que o movimento do corpo libera algo na cabeça. Ideias que estavam presas se soltam. Frases que eu não conseguia escrever aparecem do nada.
Não levo caderno para caminhar. Se algo importante aparece, eu repito mentalmente até chegar em casa e poder escrever. Às vezes esqueço. E está tudo bem. O que era importante o suficiente fica. O resto era só ruído.
Caminhar devagar me ensinou que nem tudo precisa ter um propósito claro. Às vezes o único propósito é estar no mundo e notar que ele continua existindo mesmo quando a gente para de olhar para o telefone.