No inverno, minha cozinha cheira a canela, laranja seca e louro. No verão, o cheiro é de tomate maduro esquentando no sol da janela e manjericão que eu colho com as mãos. Não planejo cardápios semanais com antecedência. Deixo que a estação me diga o que cozinhar.
Quando era criança em Hanói, minha avó ia ao mercado todas as manhãs. Ela não fazia lista. Tocava os legumes, cheirava as ervas, conversava com as vendedoras. Voltava com o que estava bom naquele dia. Eu aprendi com ela que cozinhar começa muito antes de acender o fogo. Começa no momento de escolher o que vai entrar na panela.
“Uma receita boa não é a que tem mais ingredientes. É a que tem mais atenção.”
O inverno pede lentidão
No fim de dezembro, quando o frio aperta, eu faço sopa de abóbora com gengibre e leite de coco. Deixo cozinhar em fogo baixo por quase uma hora. O cheiro sobe e aquece a casa toda. Quando está pronta, sirvo em tigelas fundas e coloco uma colher de creme azedo por cima. Não é sobre impressionar. É sobre criar um momento que as pessoas querem repetir.
Em janeiro, faço pão de centeio com sementes de abóbora. A massa precisa de tempo para crescer devagar. Eu deixo na geladeira durante a noite. Pela manhã, o cheiro de pão assando é o melhor presente que posso dar para mim e para quem está em casa.
O verão ensina generosidade
Quando os tomates começam a ficar vermelhos e moles, eu faço salada simples: tomate, cebola roxa, manjericão, azeite bom e sal. Às vezes adiciono queijo fresco que compro no mercado local. Não tempero muito. Deixo que o tomate fale por si.
Em agosto, faço compota de ameixa com canela e estrela de anis. Coloco em potes de vidro e guardo para o inverno. Quando abro um pote em dezembro, o cheiro me leva de volta para o calor do verão. É uma forma de guardar tempo em vidro.
Ingredientes que espero ansiosamente toda estação:
Abóbora, laranja, canela, louro, castanhas, chocolate amargo
Tomate, manjericão, pêssego, melancia, hortelã, limão
A mesa como lugar de conexão
Não cozinho só para mim. Mesmo quando estou sozinha, preparo a mesa com cuidado. Coloco guardanapo de pano, acendo uma vela pequena, sirvo água em copo de vidro. Parece bobagem. Mas faz diferença. Quando como devagar, saboreando cada garfada, o alimento vira mais do que combustível. Vira memória.
Quando amigos vêm, não faço pratos complicados. Faço um bom pão, uma sopa simples, uma salada grande e uma sobremesa que eu sei que eles gostam. O importante não é a quantidade de pratos. É a qualidade da conversa que acontece enquanto comemos.
Cozinhar com as estações me ensinou a esperar. Não posso comer tomate bom em dezembro. Não posso comer abóbora doce em julho. Cada coisa tem seu momento. E quando chega, vale a pena esperar.